Não com 100% de coragem, sempre com um pé atrás tentando prever o futuro de primeira, na primeira, tem sempre um frio na barriga, um tremor que só eu noto, às vezes pesadelos de olhos bem abertos.
Mas eu vou assim mesmo.
Medo maior tenho de acomodar e virar concreto armado, plástico, aroma artificial com corante, aquela coisa sem graça, sem sal nem tempero, que pouco faz diferença no dia-a-dia. Porque eu sangro, suo e choro, escorro em líqüidos reais fabricados por sensações reais e sou real mesmo quando plebéia, em mero segundo plano das intenções alheias.
Sinto muito, eu sou de verdade e sem conservantes e aromatizantes.
Não adianta procurar meu mapa e querer saber o nome das minhas ruas as coordenadas do GPS, o CEP, os facilitadores... É assim que as coisas fluem, se você me tem me faz decifrar, o problema é eu me achar em você, isso sim é o beco da rua sem número.
Pra me penetrar tem que ser no instinto e no sentimento. Tem que saber se orientar pelas estrelas e pelo faro, pelo agrado, pela situação, de palavras eu já estou cheia, tenho um dicionário na prateleira que não me serve para nada, muito do que existe ali dentro já foi gasto em vão. É assim senão você se perde - ou me perde.
Meu coração não é urbanizado. Tem leão, formiga, hipopótamo, joaninha, hiena, borboleta, elefante e minhoca. É aquela coisa de reino encantado, fábula, lenda, mito só acreditando pra entender o sentido. Aqui não dá pra fugir da lama, é pra correr descalço e sujar os pés. Não sou banquete, sou pra comer com as mãos, entende? Então essa delicadeza ensaiada e formal não me fala, nem me cala. Delicado pra mim é pinguinho de chuva na bochecha, é brisa levantando três mechas de cabelo, é gargalhada de criança, não tem nada a ver com usar os talheres certos.
Pra mim o cheiro da pele tem mais importância que o preço do perfume, pra usar em volta do corpo sou mais um abraço que uma roupa cara com intenções baratas, o brilho do olho faísca sempre mais que o diamante. Eu gosto de andar perdida pela casa. Mas eu quero andar certeira pela sua vida.
Selvagem? Sua civilização tem feras muito mais perigosas. Cuidado. Elas são traiçoeiras. Na minha selva, que te aflige, é sempre olho no olho. Nada de dircusinho barato ganhador de frase do ano. Aqui eu quero é ver quem vai piscar primeiro.
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