Para quem você olha quando anda na rua? Quantos mesmos você vê, achando que já sabe tudo da vida deles, por vê-los todos os dias fazendo as mesmas coisas nos mesmos horários? O quanto você afia o seu poder de observação indagando os outros com doses graúdas generosas de curiosidade?
Observar é de fato uma arte. É através dos olhos, a janela da alma, que entramos nas janelas dos outros, raramente de modo consentido. Somos, na maior parte do tempo, invasores de janelas alheias. E, se preciso for, arrombamos tudo com conclusões precipitadas.
O rapaz que passeia com o cachorro todos os dias e que atravessa na faixa, na minha frente, enquanto o semáforo está vermelho, é exemplo disso. Detesta passear com aquele cachorro, porque usa a coleira da impaciência. O pobre coitado — o cachorro, não o rapaz — continua adulador, embora procure solidariedade em olhares desconhecidos. É da janela do meu carro que observo os dois. Vou entrando sem cerimônia em vidas que não me conhecem, que, por sua vez, atravessam aquela rua avassalando outras, as quais, igualmente, não têm consciência de estarem sendo escaneadas.Há muita gente em inúmeras janelas espalhadas por aí, olhando tudo, quietas, praticando observação. Quantos, por exemplo, lêem as idéias da minha janela sem sequer me conhecer? Quantos permanecem fiéis e anônimos observadores acessando minha vida com regularidade, toda vez que os cruzo sem que eu saiba, para dar uma olhadela no que meus olhos castanhos vêem?Freqüentemente observo a mim mesma e me pergunto se meu olhar é que é interessante ou se o fato de manter esta janela virtual aberta é que é convite mais que suficiente para me espiarem enquanto me troco em palavras. Posso ser aquele rapaz com o cachorro andando na rua de alguém.
Não tem problema. Observar é dolorido por devassar ambientes e interiores, nossos ou dos outros, numa constante espionagem que revira valores, desesconde receios e traz à tona o que foi esquecido, mas, ao mesmo tempo, revela muito do que somos, nós e os outros, escancarando pensamentos expostos na vitrine do olhar.
Ohar o que não é meu é o que faz me perder do que me perde por dentro, do que não encontro em mim, talvez possa estar guardado em você...
terça-feira, março 27, 2007
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